Guerrilheiro por Um Dia

(Ou: A Militância ao Alcance de Todos)

Até o fim dos anos setenta, o kit básico do militante ativo incluía cartazes, camisetas, fantasias, megafone, muita retórica e uma grande disposição para enfrentar a reação quase sempre hostil do alvo da causa em questão. Não raro era preciso enfrentar a reação física de seguranças ou até mesmo tropas de choque com jatos d’água e balas de borracha. Para ser um militante era preciso, antes de mais nada, ser profundamente consciente de uma causa e disposto a ir a extremos que incluíam risco de morte em enfrentamentos corpo-a-corpo.

É claro que estas dificuldades afastavam a grande maioria das pessoas que até simpatizavam com alguma causa, mas não tinham a coragem necessária para este tipo de atitude.

Mas, a partir dos anos noventa, a popularização da internet em todo o mundo gerou um novo tipo de cidadão: o cibermilitante.

Agora, a militância não é mais tão exigente. Com um pouco de tempo disponível, um computador e uma conexão com a internet, qualquer um pode defender a causa que julgar mais adequada ao seu estilo de vida sem comprometimento dos seus afazeres diários, sem correr nenhum perigo e, inclusive, se assim o desejar, no mais completo anonimato. Enfim, uma militância “confortável”.

Além de todas estas facilidades, a grande rede tornou disponível também uma grande variedade de causas a defender. Se você gosta de animais, se você não gosta de animais, se você simpatiza com os esquimós ou com os aborígines australianos, não importa. Na rede certamente você encontrará uma causa na medida exata da sua consciência. Basta procurar e pronto: logo você encontrará uma causa para acalmar aquele desconforto espiritual causado pela sensação de que não estava dando a sua contribuição para a melhoria das condições de vida no planeta.

À primeira vista, isto parece bom. Mas, como tudo na vida, tem prós e contras. Na mesma medida em que a larga divulgação por intermédio de e-mails, sites e comunidades virtuais aumentou a conscientização, trazendo reais melhorias no nível de informação das pessoas, ficamos todos expostos aos exageros que sempre acompanham este tipo de conscientização.

Assim, surgiu um novo tipo de chato na praça: o ciberchato. Através de spam ele invade as caixas de e-mail aleatoriamente, mundo afora, chamando todos à consciência militante, estejam estes interessados ou não em sua mensagem. Militantes de todos os matizes nos bombardeiam diariamente com milhares de mensagens conclamando-nos a participar de correntes, assinar listas de reivindicações, participar de abaixo-assinados virtuais e um sem-fim de novas e variadas formas de protestos.

Desta maneira, atingimos o outro extremo: o enfado. De tanto se ouvir falar de causas, justas ou injustas, acabamos por ficar, de certa forma, anestesiados, imóveis diante da grande diversidade de opções. Afinal, se são tantas e tão variadas as causas e se a militância é isso que recebo todos os dias em meu e-mail, será que quero fazer parte? Vou ter que agir e me comportar desta maneira, invadindo também o espaço virtual dos outros?

Exageros à parte, é preferível que seja assim. Afinal, o que é um pequeno incômodo diante da grandeza de causas que realmente merecem nossa atenção? O segredo está em discernir com clareza o que realmente precisa de nossa participação. A grande oferta de causas ou até mesmo a inconveniência de alguns cibermilitantes não pode servir de desculpa para nos omitir diante de causas que precisam de nossa participação. Ao fim e ao cabo, o que se precisa mesmo é o velho e indispensável bom-senso além de uma grande dose de consciência crítica.

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