O último barbaquá

Um casal do interior de Tenente Portela ainda mantém a tradição da erva-mate crioula.

O sol, uma explosão incandescente na altura dos olhos, ofusca o motorista que, por alguns instantes perde de vista a estrada muito irregular, esburacada e estreita. Instintivamente, freia. Espera por alguns instantes até que o olhar se acostume e arranca novamente, devagar, cauteloso. A descida, íngreme, obriga ao uso do freio constantemente. Enquanto avança lentamente vai pensando. Há quantos anos o mesmo ritual se repete? Quantos percorrem os mesmos 15 quilômetros de estrada de chão desde a cidade até a propriedade para onde nos dirigimos no interior remoto do município? O que afinal atrai tantos e tão fieis clientes? O que existe de tão diferente na diminuta localidade de Nossa Senhora da Saúde? O nome designa uma pequena vila próxima. Pouco mais que meia dúzia de moradores, todos pequenos agricultores. A rotina do local se repetia em outros distritos do município: pequenas famílias às voltas com a produção e exploração da terra. Os produtos, todos previsíveis: leite, soja, milho e trigo. Há pouco mais de mil e quinhentos metros do “centro” da localidade, porém, um produtor destoa dos demais. O movimento regular de clientes entrando e saindo da propriedade dá uma pista: alguma coisa diferente acontece naquele lugar.

Claudio em frente ao pequeno engenho

Os carros que entram e saem constantemente não tem muito a ver com a realidade do lugar. São “carrões” de último tipo, que indicam uma clientela exigente, diferenciada. Mas, a quem eles vão procurar? O que pode ter ali que desperta o interesse de um público tão distinto? Que tipo de produtor se esconde por trás de curvas, declives e pedras e ainda assim faz com que seus clientes não desistam de sua mercadoria? Seu nome: Claudio Signori. O seu produto: erva-mate! Dito assim parece pouco. E realmente não é muito. Aliás, este “pouco” parece ser parte do charme do produto. Parece que nunca há o suficiente.

Ao dobrar a última curva, o carro se defronta com um galpão acanhado, de madeira crua, com resquícios de uma tinta de cor indecifrável, marcada na madeira reaproveitada de antigas moradias. O arvoredo fechado alivia o calor de 35 graus. Nem uma folha se move na tarde modorrenta de novembro. Ao descermos do carro, recuamos às pressas. Pelo menos cinco cachorros de variadas raças e tamanhos avançam latindo raivosamente. À frente um dachsund com cara de poucos amigos. Então, um grito autoritário desarma a cachorrada que passa imediatamente a abanar nervosamente os rabos. A origem do grito faz com que nos voltemos. Num terreiro ao lado, uma sombra fechada convida ao descanso. Algumas cadeiras, uns tocos improvisados como bancos. No centro, resquícios de um fogo de chão há muito extinto. O chão batido quase brilha, denunciando o uso freqüente do espaço. É de lá que se levanta para nos receber o dono da casa. Magro, face encovada, cabelos despenteados e crespos, Claudio mal esboça um sorriso quando nos cumprimenta. De poucas palavras, tímido, fala quase se desculpando:

- Se vieram pela erva, aviso que tenho pouca.

Rimos, porque este é quase um mantra que ele repete a cada novo visitante. Depois que explicamos o porquê da nossa vinda, nos convida para sentar.  Não consegue entender o que ele faz que pode despertar interesse em alguém a ponto de escrever sobre isto. Passamos a conversar sobre amenidades, o tempo, o calor… Tudo para quebrar o clima de constrangimento do entrevistado e facilitar o nosso trabalho. Mas, poucos minutos depois de nossa chegada, a esposa se aproxima. Morena, estatura mediana, pele crestada pelos muitos dias de trabalho ao sol,  ela estende ao marido uma cuia de chimarrão e uma térmica para que ele faça as honras da casa. Ele serve o primeiro mate e toma enquanto conversamos. Segundo a tradição do chimarrão, nunca deve ser oferecido aos visitantes o primeiro mate. Este deve ser sorvido pelo dono da casa e só então a roda começa. Logo em seguida, ele serve novamente e me estende a cuia, lustrosa pelos anos de uso. Tomo o primeiro gole e imediatamente entendo o que desperta a fidelidade de tantos admiradores. O chimarrão, com água espumante e na temperatura exata, tem um sabor que raramente pode ser encontrado com as ervas-mate industrializadas. O gosto amargo típico da erva-mate é amenizado na medida exata por uma indefinida doçura acompanhada por um toque marcante de defumado. Para quem toma chimarrão regularmente, é uma experiência arrebatadora. É como passar do arroz branco e simples de todo dia para um sofisticado risoto executado por requintado gourmet. Fica fácil entender o fascínio despertado e o segredo que o mantém há tantos anos sendo procurado com tanta assiduidade por seus clientes. O sabor forte e marcante nos remete imediatamente a tempos ancestrais. Para os primórdios da extração da erva-mate sul do continente.

Quando os conquistadores chegaram por aqui, o costume de consumir erva-mate era largamente difundido entre os guaranis, que a tinham como um de seus alimentos básicos. A ilex paraguaiensis, segundo designação científica criada pelo naturalista francês Auguste Saint Hilaire, tornou-se relevante comercialmente a partir do século XVII, através do trabalho dos jesuítas da Companhia de Jesus, que viram nela um produto de alto valor e com grande potencial de vendas. Assim, passaram a cultivá-la por mais de um século e meio, até que foram expulsos do país, em 1768. Neste período, a erva-mate chegou a ser exportada para países como Bolívia, Chile, Peru, etc. Parte do sucesso da infusão começou com a propaganda feita pelos primeiros soldados espanhóis , em 1536, quando fundaram a primeira cidade da America latina, Asunción Del Paraguay. Lá eles descobriram  os maravilhosos efeitos da erva-mate para amenizar os efeitos devastadores da ressaca que as homéricas borracheiras provocavam. À moda paraguaia, a erva era consumida como tererê: água fria, limão e erva mate servida em qualquer recipiente. Na época a maneira mais popular era servi-lo em taquaras ou bambus cortados na forma de copo. Uma taquara fininha fazia às vezes de bomba. Hoje, naquele país, o tererê é servido normalmente em recipientes de vidro e a água é servida gelada. Há também variações com açúcar e laranja no lugar do limão. Tradicionalmente, a erva é consumida de três maneiras básicas: o chimarrão, o tererê e o chá-mate. Mas hoje já se contam às dezenas as outras aplicações do produto. Por exemplo, como insumo para alimentos como corantes, conservantes ou na fabricação de sorvetes,balas, bombons, etc. Também é largamente utilizado na industria de medicamentos, para a elaboração de compostos para tratamento de hipertensão, bronquite, pneumonia,etc. A erva também está sendo muito utilizada para a fabricação de bactericidas, desodorantes, sabonetes e perfumes. Como se vê, a erva-mate se tornou uma alternativa econômica de fundamental importância para a economia do país. Mas boa parte destas características que a indústria vem explorando já era conhecida dos consumidores das infusões feitas com o produto. Aliás, o sucesso da erva-mate se baseia principalmente em suas características estimulantes. Considerada um tônico, ela tem na cafeína um de seus principais componentes. E, segundo especialistas, esta é a principal razão de seu sucesso. Atualmente, por exemplo, um energético de muito sucesso, o Blue Energy,  é produzido nos Estados Unidos e exportado para o mundo todo, Brasil inclusive, e seu  componente básico é a erva-mate.

Segundo a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a exploração da erva-mate é uma atividade de extrema importância sócio-ambiental. Ambiental porque, quando plantada em curvas de nível, ela contribui enormemente para evitar a erosão do solo. E social porque no Brasil hoje são mais de 180 mil propriedades rurais que a produzem, gerando diretamente cerca de 710 mil empregos diretos, principalmente nos meses de junho, julho e agosto, que é a época da concentração da poda.  Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística em seu ultimo levantamento, a produção brasileira de erva-mate oficialmente gira em torno de 350 mil toneladas/ano de produto já beneficiado. Este beneficiamento é feito  por 750 empresas distribuídas por todo o país.

Mas os seus valores vão muito além disto, como bem sabem seus consumidores. No Rio Grande do sul, aliás, o chimarrão se tornou muito mais do que apenas um hábito. Para além dos valores saudáveis ou nutricionais, ou comerciais, o chimarrão transformou-se num verdadeiro lubrificante das relações sociais. Em encontros familiares, roda de amigos, bate-papo entre vizinhos, o chimarrão funciona como um catalisador de relacionamentos. E era exatamente isso que estava acontecendo conosco agora, enquanto conversávamos. Quinze minutos depois de nossa chegada, Claudio, já à vontade, entre um chimarrão e outro, começa a nos contar a sua história. Que, é claro, não aparece nas estatísticas oficiais.

A terra onde ele mora é herança de seu pai. Sempre foi muito propícia, como de resto toda a região, para o cultivo da erva-mate. Por isso, há cerca de trinta anos ele começou a trabalhar com a produção e beneficiamento de erva-mate para o chimarrão. Naquela época, ele lembra, havia fartura de ervais nativos, mas mesmo assim ele e o irmão decidiram investir na plantação de um erval para garantir a matéria prima necessária. A experiência fracassou. Após três anos, ao fazer o primeiro corte, eles perceberam que tinham três hectares de erva de péssima qualidade. A solução foi destruir a plantação e partir para outros tipos de cultivo, já que não dispunham de verba para reinvestir numa plantação cujo ciclo de rendimento é tão demorado. Então, ele decidiu seguir sozinho com a produção, sempre de forma artesanal. Inicialmente, tinha facilidade para encontrar árvores nativas de boa qualidade pela região. Com o passar do tempo, isto foi se tornando cada vez mais difícil. Inclusive ele lembra que nos dias de hoje nem sequer a designação de “nativa” é garantia de boa qualidade. Segundo ele, a polinização está se dando entre espécies diferentes e isto está produzindo novas árvores “castiças”, o que compromete a qualidade. O que permite que ele continue em atividade é o fato de que, por ser “veterano” nesta área, ele conhece e sabe onde tem os ervais mais antigos e de melhor qualidade. Como já conhece bem a região e seus moradores, ele estabelece parcerias com os donos das árvores que tem mais qualidade. Após a poda e o beneficiamento, ele destina a metade do que produziu para o dono do erval. A grande maioria de seus fornecedores são, na verdade, apenas consumidores de sua erva. Por isso, todos fazem a parceria apenas para obter erva de boa qualidade para o próprio consumo. O excedente desta produção é o que Claudio vende para os outros “fregueses”.

O pico da produção é no inverno. Os meses de maio, junho, julho e agosto são os mais propícios para a colheita e o beneficiamento da erva-mate. Logo após os dias mais frios, de preferência depois de uma geada ou duas, é o momento ideal para a colheita. Quando isso acontece, Claudio se desloca pela região, em busca das folhas que “engrossaram” com o frio. Os longos anos na atividade são de grande ajuda para Claudio. Ele já tem um cronograma mental de onde e quando devem ser colhidas as folhas. Neste período, a produção atinge o seu pico: cerca de cem quilos por semana de erva pronta. Poderia ser muito mais. Erva existe à vontade. Mas a qualidade se perderia. E para ele isto seria inaceitável. Se alguém lhe oferece erva de locais onde ele ainda não conhece, o primeiro passo é visitar o erval e avaliar cada árvore. Se o padrão não for como ele espera, é recusado. Mesmo que o cliente insista e lhe ofereça valores mais altos. Ele precisa zelar pela fama de erva-mate de alto padrão. Não existe uma marca comercial registrada, mas os anos de atividade lhe trouxeram uma fama pela qual ele pretende zelar. Um dos maiores orgulhos de Claudio é a garantia de qualidade: se não gostar da erva, o cliente pode trazê-la de volta. Não por acaso, vem gente de várias regiões do país em busca do seu produto. Lugares mais distantes como Rosário do Sul, ou até mesmo do Mato Grosso, todos vem em busca das características exclusivas do chimarrão feito com a sua erva-mate. Segundo a sua opinião, não há mais na região ninguém que produza erva-mate como ele. Por tudo isso, ele se esmera na escolha não só da variedade certa da erva, mas também do momento apropriado para colhê-la. E, é claro, redobra o zelo em cada passo do ritual da preparação. E ele avisa: é preciso ter cuidado também na conservação. Depois de pronta, a erva se deteriora rapidamente: em trinta dias ela já terá perdido suas melhores características. A única maneira de conservá-la por mais tempo é embalando-a em plástico e colocando-a em um freezer, ao abrigo da luz e do calor.

Observando a paixão e o rigor de Claudio ao falar sobre os seus métodos de produção é inevitável a comparação: é como se ele estivesse produzindo vinhos das melhores cepas. E quando visitamos as instalações onde a erva é beneficiada isto fica ainda mais evidente. O trabalho é muito grande e os cuidados precisam ser redobrados.

Tudo começa no sapeco, que é como é chamada a primeira secagem das folhas. Os galhos, ao serem colhidos, já o são de maneira a facilitar o trabalho. Mais compridos, eles permitem que, ao aproximar as folhas do fogo para esta primeira secagem, o operador não se queime. E assim galho por galho, as folhas recebem a primeira tostada. Cada folha precisa receber a dose certa de calor. Se algumas folhas estiverem ainda “cruas” ou muito sapecadas, podem comprometer o resultado final. Após, são retirados os galhos mais compridos que ajudaram a manter a distância durante o sapeco. Depois disto, as folhas e pequenos galhos que sobraram são quebrados manualmente. O padrão é a grossura de um lápis: nenhum galho pode superar esta espessura. Aí então, depois de quebrado, vem a hora do barbaquá ou carijo. Trata-se de um engenhoso estrado de madeira feito em forma de pirâmide, que fica a cerca de um metro do chão, ocupando todo o espaço de uma sala quadrada, sem nenhuma abertura. Embaixo deste jirau, bem ao meio, há uma abertura no chão por onde passa a fumaça e o calor vindo de um forno que fica há nove metros de distância, do lado de fora da casa, num nível mais baixo. É como se o forno tivesse uma chaminé que passa por baixo da casa, desembocando nesta sala. Pairando acima da boca desta chaminé, logo abaixo do estrado, é colocada uma chapa metálica redonda que faz com que a fumaça e o calor se espalhem uniformemente pelas folhas e galhos que são colocados em cima do jirau. Este processo de secamento no carijo dura mais ou menos três dias. Durante este período, a cada duas horas, Claudio tem que cuidar a intensidade do calor, para monitorar em cada momento o processo de secagem. Atiça o fogo, reacomoda os galhos, experimenta as folhas. Dia e noite. Depois disto, a erva está pronta para o cancheamento. Isto nada mais é do que quebrar a erva mais uma vez, em pedaços menores. Porém, nesta ultima fase é usada uma trilhadeira, equipamento normalmente usado para debulhar cereais, como milho. Após esta fase a erva está pronta pro engenho. É uma estrutura com três pilões mecanizados que socam incessantemente até que a erva esteja triturada exatamente no ponto ideal para o melhor chimarrão. O engenho é uma obra de carpintaria feita por ele mesmo. É acanhado para os padrões industriais do mercado, mas mais do que suficiente para as pretensões de Claudio. O quilo de sua erva custa em média o dobro do praticado no mercado. Ele não quer mais clientes. Acha que já tem muita demanda que não consegue atender. Para dar conta de toda a produção, ele conta apenas com a ajuda de sua mulher. Juntos, eles são os únicos responsáveis pela execução de todo o processo.

Quando pergunto sobre a viabilidade e o futuro de seu negócio, uma rápida sombra perpassa os seus olhos. Ele diz que atualmente ninguém mais se interessa pela profissão de ervateiro da forma como ele a pratica. Lembra que há alguns anos muita gente se dedicava e era fácil encontrar profissionais para trabalhar. “Hoje ninguém mais se interessa”, lamenta. “Acho que, quando eu morrer, isto tudo vai acabar junto comigo”. Um silêncio pesado pontua a declaração.

Claudio Luis Sinhori, 56 anos, e sua esposa, Araci de Almeida Sinhori, parecem ser os últimos praticantes na região de uma arte já quase esquecida: a elaboração da erva-mate de carijo. Mais que um produto, uma manifestação cultural que está ameaçada pelo progresso e pelo vício modernoso das grandes produções em escala, com baixo custo e altos lucros. Os tempos modernos não têm mais paciência ou tolerância para a arte lenta e delicada exercida por um homem e uma mulher que fizeram da tradição uma forma de vida. O latido dos cães e a alegre algazarra dos pássaros, a única agitação no lugar, parecem diminuir. Lentamente como as horas que escorrem, os últimos raios de sol iluminam os galhos de um solitário pé-de-erva ao longe. Ele parece se despedir…

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3 Respostas to “O último barbaquá”

  1. fortes Says:

    Grande compadre!!!!!

    Bonito a história do Claudio. Lembrei dele, fomos colegas de aula.

    Quanto a qualidade do texto é para dar inveja ao Tarso de Castro e Millôr!!!!

    Um grande abraço

  2. genair Says:

    legal, o meu pai fazia erva assim, lembro como se fosse hoje, nos morava em coronel bicaco,talves seu claudio conheceu ele. abraço

  3. Juarez de Paula Says:

    Muito boa reportagem. Lá no Rio Quinto, interior de Viadutos-RS, a história se repete, sem tirar nem por, só muda os autores: Arno e Marlene Dllagnol, um pouco mais novo 53anos e ela 51anos…eu sou cliente er amigo da verdaeira seiva nativa…vai um?

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